O sol se põe, tingindo de dourado as montanhas que abraçam nossa cidade. Nesse cenário, ao contemplar a beleza local, me pego refletindo sobre o olhar de Sebastião Salgado. A recente partida de um dos maiores mestres da fotografia ainda ecoa forte e me faz imaginar: o que ele, com sua lente única, teria registrado se tivesse caminhado por aqui?
Salgado não buscava o óbvio, nem os clichês turísticos. Seu olhar se voltava às entrelinhas – aos detalhes que o mundo costuma ignorar. Com sua lente, ele temperava a luz e a sombra, capturando a essência da condição humana e a majestade da natureza.
Imagino-o andando pelas ruas de terra, não com a pressa de um visitante, mas com a paciência de um observador. Talvez suas primeiras fotos fossem das costureiras locais: mãos que tricotam lã e crochê com dedicação quase ancestral. Faria foco nos vincos da pele, as unhas segurando a agulha, os olhares concentrados — gestos que revelam sabedoria passada de geração em geração.
Depois, o cheiro de café o guiaria. Não à cafeteria da praça, mas às lavouras dos arredores. Mulheres colhendo grãos sob o sol, homens carregando sacas nos ombros — corpos que estampam a força do trabalho. Ele captaria ali a simbiose entre homem e terra, o suor que rega o sustento.
E a natureza de Serra Negra, então? Ele não se limitaria às paisagens amplas. Seu foco se voltaria ao detalhe: uma orquídea rara num canto esquecido da mata atlântica, um sabiá solitário ao amanhecer, a textura de uma rocha marcada pelo tempo e pela chuva.
Mas acima da vegetação, Salgado seria atraído por nosso maior tesouro: as fontes de água mineral. Captaria o borbulhar cristalino que brota da terra, a pureza intocada, o ritual cotidiano: as filas de moradores, o esforço no transporte dos garrafões, o gesto simples e sagrado de levar para casa a própria fonte de vida.
E talvez, ao fim do dia, ele se sentasse com os que carregam os anos na alma e as histórias nos lábios. Na varanda, ouviria causos antigos e cruzaria prosas com o historiador Nestor Leme. Fotografaria a serenidade de quem viveu e amou, a sabedoria preservada na tradição oral — retratos da alma, do tempo e da permanência da vida.
Sua recente partida reforça a imensidão de sua obra. Por isso, o evento Encantos das Sereias: Cores, Curtas e Cultura em Serra Negra, na Residência Artística, incluiu justa homenagem póstuma. A exposição reúne livros com suas imagens icônicas e obras minhas, também em preto e branco e lançadas em Paris — como tantas de Salgado. Uma confluência de olhares que, cada qual a seu modo, buscou (e continua buscando) a beleza e a verdade na complexidade do mundo.
Impossível encontrar uma foto “sem sal” de Sebastião Salgado: ele temperou a arte da fotografia com humanidade e poesia. E o sabor que deixou é perene.
Henrique Vieira Filho é artista visual, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “Sociedade Das Artes” (SNIIC: SP-21915), diretor de arte, produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTB 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP) e terapeuta holístico (CRT 21001).

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “Sociedade Das Artes” (SNIIC: SP-21915), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), professor de artes visuais, pós-graduado em psicanálise e em perícia técnica sobre artes.
http://lattes.cnpq.br/2146716426132854
https://orcid.org/0000-0002-6719-2559
Contando com cerca de 60 exposições entre individuais e coletivas, em galerias, polos culturais e museus em diversos países, suas obras estão disponíveis tanto em galerias consagradas, como a Saatchi Art, quanto em sua galeria própria, a Sociedade Das Artes, até os mais singelos espaços alternativos.
Atualmente radicado no interior de SP, dedica-se, em especial, ao Slow Art Movement, que prega a apreciação afetiva, “sem pressa” das artes, para todas as camadas da sociedade e ao Projeto Re Arte, em que abre espaço a novos talentos artísticos e à integração das mais diversas formas de artes, por meio de mixagem e releituras.
Editor, autor, pesquisador e parecerista nos periódicos Artivismo (ISSN 2763-6062), Revista TH (ISSN 2763-5570) e Holística (ISSN 2763-7743), conta com centenas de artigos publicados e vinte livros, além de colaborações, entrevistas e consultorias para Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo, Diário Popular, Jornal O Serrano, Revista Elle, Revista Claudia, Revista Máxima, Revista Veja, Revista Planeta, Revista Capricho, Revista Contigo, Revista Saúde, Revista Boa Forma, Rádio Globo, Rádio Gazeta, Rádio Eldorado, Rádio Nova, TV Globo (Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Fantástico, etc.), TV Gazeta (Telejornal, Mulheres, Manhã na Paulista), TV Record, SBT (Telejornal, Jô Soares Onze e Meia, etc.), TV Jovem Pan (Telejornal, Opinião Livre, etc.), TV Cultura, TV Bandeirantes, Rede Mulher, TV Rio.