• Quando a Imagem Pede Licença à Palavra

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Imaginação Ativa na ReArte - Ilustração: Henrique Vieira Filho

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Sempre acreditei que a arte é “fominha”: ela raramente se contenta com um prato só. O melhor dos mundos acontece quando a literatura resolve se casar com a pintura ou a fotografia. É uma união tão potente que, às vezes, a gente não sabe se está lendo uma imagem ou vendo um texto.

Um exemplo doloroso (e atual) dessa simbiose são as obras surrupiadas da Biblioteca Mário de Andrade. Tomem o caso de “Menino do Engenho”: de um lado, a escrita magistral de José Lins do Rego; de outro, as ilustrações primorosas de Cândido Portinari. É um maravilhamento por dois caminhos que chegam ao mesmo coração. Há momentos, porém, em que a imagem é tão eloquente que resolve “pedir licença” à palavra e seguir sozinha, como nos livros de Matisse ou nas fotografias de Sebastião Salgado. Ali, o silêncio do papel diz tudo.

Mas, a arte não serve apenas para enfeitar estantes ou atrair ladrões de elite. Ela é uma ferramenta de escavação da alma. E quem sabia disso muito bem era Carl Jung.

Considerado um dos maiores pensadores do século XX, o fundador da psicologia analítica tinha um “segredo de Estado”. Ele pintava, esculpia e caligrafava como meio de acessar o inconsciente! Jung temia que, se seus pares cientistas soubessem que suas teorias nasceram de pincéis e cinzéis, não o levariam a sério. Essa história da origem da técnica, que atualmente chamamos de “imaginação ativa”, ficou guardado a sete chaves. Só muitos anos após sua morte é que seus herdeiros revelaram o “Livro Vermelho” (acalmem-se os exaltados: o nome é pela cor da capa, sem qualquer relação com o espectro político!).

Seguindo os passos desse meu herói, eu também tenho o meu “filho” de papel: o livro “Diversidade”. Nele, reuni artes fotográficas e pinturas que fiz para retratar a miscigenação cultural do nosso povo. E confesso uma coisa: em minhas “mil profissões”, exerci a psicoterapia por mais de 35 anos e, muito antes de mergulhar fundo na teorização de Jung, eu já usava a arte e a fotografia com meus clientes. A imagem, muitas vezes, é o único GPS capaz de localizar um sentimento perdido no labirinto do inconsciente.

Toda essa mistura — de arte, terapia e as reproduções das obras de Matisse e Portinari (sim, usaremos as ausências delas como um protesto contra a fragilidade do nosso patrimônio) — estará em exposição aqui na ReArte entre os dias 16 e 30 de janeiro.

O evento “Do Livro ao Museu em Serra Negra” é um convite para você descobrir que, na arte, a soma de várias técnicas resulta em algo muito maior que o total das partes. É uma chance de ver de perto o diálogo entre a luz de Salgado, o mistério de Jung e as cores da nossa gente.Agendem sua visita pelo WhatsApp (11 98294-6468). Afinal, as imagens estão loucas para conversar com vocês, e eu garanto que elas têm histórias que as palavras ainda não aprenderam a contar!

HENRIQUE VIEIRA FILHO Administrator

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e Biblioteconomia.

http://lattes.cnpq.br/2146716426132854

https://orcid.org/0000-0002-6719-2559

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